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entrevista

O que importa é a alma

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O que importa é a alma

À frente da CS Importadora, Camila Cunha Tavarese e Stefânea Bertóz — de olho nos lojistas, no consumidor final e no futuro — acabam de abrir a sua primeira loja

Por Silviane Neno
Retratos Claudio Gatti

Na décima quinta edição da ABCasa Fair — a principal feira business-to-business (comércio entre empresas) da América Latina de artigos para casa, decoração, presentes, festas, utilidades domésticas —, em agosto deste ano, em São Paulo, um espaço chamou a atenção dos visitantes. Entre os mais de 350 expositores, o estande de 110 metros quadrados da estreante CS Importadora parecia pequeno para o tamanho do interesse do público. Não se sabe se foi o colorido das lagostas, peras e figos esculpidos em vasos — entre outros adornos — que foram o chamariz. Mas fato é que as peças expostas pela dupla Camila Cunha Tavares e Stefânea Bertóz — as sócias e criadoras da CS importadora — tornaram-se um sucesso instantâneo. Tão inusitado e fora do comum quanto os produtos foi a forma e a rapidez que a empresa começou. Apenas quatro meses depois de aterrissarem em terras estrangeiras, Camila e Stefânea — a dupla CS — retornaram trazendo contêineres com as primeiras linhas desenvolvidas com exclusividade pela dupla. Uma história que começou com gostos em comum, afinidade nos objetivos, mas, sobretudo, porque ambas se completam. Camila é a idealizadora, a dona das ideias mais ousadas. Stefânea, a criativa pé no chão. A base jurídica forte com especialidade em Direito Tributário deu a Camila o conhecimento técnico para navegar pelo universo das franquias e só refinou sua veia empreendedora, assim como a participação ativa dela em conselhos de administração de empresas de terceiros. É ela quem negocia com fornecedores, discute prazos, cobra perfeição na qualidade e na entrega, bate na mesa se for preciso e quem tem o olhar para os pequenos artesãos, devido a sua trajetória no terceiro setor. Camila — juntamente com a sócia — lidera a importadora e mais cinco marcas que fazem parte do portfólio da CamiStef. Stefânea tem formação internacional em moda, design e arquitetura. Ela é graduada em Fashion Design pelo Istituto Europeo di Design, com especialização na Itália, e Design de Interiores na escola Bauhaus, na Alemanha. No Brasil, concluiu sua formação na Belas Artes de São Paulo. Trouxe essa experiência e deu régua e compasso às criações das sócias. Camila é de Aquário. Stefânea, de Áries. Amigas da mesma idade e mães de meninas elas já são, em menos de um ano, donas de uma história composta por cinco marcas, duas destinadas ao consumidor final (incluindo a loja física no Alto de Pinheiros, em SP), e três B2B, incluindo a CS Importadora.

Stefânea Bertóz Dutra e Camila Cunha Tavares. Foto. Claudio Gatti

THE PRESIDENT _Como vocês se conheceram e como começou a sociedade?

Camila – Nos conhecemos na escola onde nossas filhas estudam. A amizade foi crescendo, até que um dia pedi a ajuda da Ste — como a costumo chamar — para decorar minha casa no interior. Ela aceitou, fizemos juntas, e o resultado foi tão bom que outras pessoas começaram a nos chamar para projetos. Assim nasceu a sociedade, a partir de uma amizade que foi se transformando em parceria profissional.

Em que momento surgiu a ideia de importar peças da China?

Stefânea – Tudo começou quando percebemos a dificuldade de encontrar objetos diferentes no Brasil. O mercado era muito repetitivo e a competição de preço muito grande, com as mesmas peças em todas as lojas, preços altos e pouca diversidade. Foi aí que pensamos: “E se buscássemos peças diretamente da China e de outros países?”. No início parecia um sonho distante, mas começamos a pesquisar, entender fornecedores e logo estávamos organizando a primeira viagem. A ideia não era, ainda, abrir uma importadora, mas, sim, trazer peças para nossas decorações pessoais. Só que, ao chegar lá, vimos o potencial e decidimos estruturar algo maior.

Então, na primeira viagem, vocês não tinham o objetivo de negócios?

Stefânea – Não exatamente. A primeira viagem foi motivada pela possibilidade de encontrar boas mercadorias para nós ou para nossos clientes. Mas logo que chegamos percebemos que havia uma oportunidade enorme. Visitamos fábricas, começamos a desenvolver produtos e, quando vimos, já estávamos fechando dez contêineres.

Como acontece a criação desses novos produtos?

Camila – Além de criar, modificamos produtos prontos, acrescentando, por exemplo, cores mais atuais seguindo a tendencia internacional e também peças que desenvolvemos do zero.

E quando a importadora nasceu de fato?

Camila Ao voltar da primeira viagem, meu marido perguntou onde iríamos colocar os contêineres de produtos que compramos e como iríamos escoar no mercado. Foi quando lembrei de um prédio desocupado no Alto de Pinheiros [zona Oeste de São Paulo], que tinha a nossa cara. Fui conversar com os proprietários e no mesmo dia fechamos a locação de um imóvel de 4 mil metros quadrados. Em pouco tempo, estruturamos nossa importadora, criamos marcas próprias e passamos a planejar a participação em feiras do setor.

Como foi participar da primeira feira em São Paulo?

Stefânea – Foi um divisor de águas. Estreamos na feira ABCasa, em agosto, apenas três meses depois de termos voltado do exterior. Levamos uma coleção de vasos, pratos e objetos exclusivos que tínhamos desenvolvido fora, em abril. O retorno foi surpreendente: vendemos tudo. Para testar, tínhamos pedido apenas 100 peças de cada item, mas a aceitação foi tão grande que as compras efetuadas não foram suficientes para a demanda. Rapidamente contatamos os fornecedores e praticamente multiplicamos por cinco a quantidade da maioria dos itens comprados.

Camila – Sim, saímos da feira com a certeza de que estávamos no caminho certo e que o mercado tinha espaço para o tipo de curadoria e criação que estávamos propondo.

Como funciona hoje o modelo de negócio de vocês?

Stefânea – Estruturamos a empresa em três braços. A CS, nossa importadora, atende exclusivamente lojistas com inscrição estadual. A IT, que é a loja física, foi criada para atender o consumidor final e pequenos revendedores, com preços competitivos e produtos cuidadosamente escolhidos das importadoras brasileiras mais uma vez dentro de uma curadoria ligada ao nosso estilo e a tendências atuais. E temos também a SAHCI, nossa marca de pratos e itens de mesa desenvolvidos no Brasil. Com essa estrutura, conseguimos atuar em diferentes frentes: na importação exclusiva para atacado e desenvolvimento junto a produtores brasileiros de artigos exclusivos; na venda direta ao consumidor; e com linhas próprias, inclusive para exportação. Esse modelo nos dá flexibilidade e fortalece a marca como referência em design e decoração.

É verdade que sua filha de 9 anos já participa de um dos negócios com algumas criações?

Camila – Sim, nesta veia de empreendedorismo e utilizando a estrutura física em que nos instalamos, criei uma marca de produtos para papelaria e artigos infantis, a GUBINS, e estou incentivando minha filha a participar da criação e até da operação.

O que diferencia os produtos de vocês das demais importadoras?

Stefânea O diferencial está em desenvolver coleções próprias, em vez de comprar de catálogos. Criamos produtos originais, com desenhos autorais, cores ousadas e formatos diferentes. Isso garante identidade das marcas e exclusividade. Além disso, cuidamos para que nossas peças não sejam facilmente copiadas e, se assim forem, que sejamos pioneiras.

Camila – Outra diferença é a curadoria. Não seguimos apenas tendências, buscamos criar novas propostas. Queremos oferecer ambientes com alma, que reflitam o dono da casa, e não apenas vitrines montadas. Acreditamos que a casa deve ser feliz, divertida, cheia de personalidade, irreverente e aconchegante.

Como se dá a curadoria?

Stefânea É muito intuitiva, mas também fruto de muita pesquisa. Viajamos, visitamos feiras internacionais, observamos o comportamento das pessoas. Notamos que o mercado brasileiro estava muito neutro, com pouca cor, sem vida. Decidimos apostar em contrastes vibrantes, como vermelho com roxo, turquesa com laranja. Também percebemos que havia espaço para peças criativas e lúdicas. Foi assim que surgiram coleções inspiradas em frutos do mar, figos, peras, que caíram no gosto do público. Nossa curadoria é misturar sofisticação com alegria, criando algo novo.

Quais foram os principais desafios no início?

Camila – O primeiro foi lidar com a China. Lá não existe a mesma lógica de exclusividade. Então alguns produtos que desenvolvemos acabaram sendo vendidos também na Europa. Isso gerou espanto, mas ao mesmo tempo foi a prova de que nossas ideias tinham valor. Outro desafio foi a burocracia: lidar com impostos, logística de importação. Fizemos tudo em tempo recorde, mas foi uma maratona. Além disso, tivemos de conquistar espaço em um mercado dominado por grandes importadoras, que já tinham tradição e volume.

Quais foram os principais desafios no início?

Camila – O primeiro foi lidar com a China. Lá não existe a mesma lógica de exclusividade. Então alguns produtos que desenvolvemos acabaram sendo vendidos também na Europa. Isso gerou espanto, mas ao mesmo tempo foi a prova de que nossas ideias tinham valor. Outro desafio foi a burocracia: lidar com impostos, logística de importação. Fizemos tudo em tempo recorde, mas foi uma maratona. Além disso, tivemos de conquistar espaço em um mercado dominado por grandes importadoras, que já tinham tradição e volume.

Vocês mencionaram que conseguiram estruturar tudo em apenas quatro meses. Como foi esse processo?

Camila – Foi um turbilhão. Voltamos da China no fim de abril e, em agosto, já estávamos na feira ABCasa. Nesse intervalo, alugamos o prédio, montamos showroom, criamos identidade visual, abrimos CNPJ, trouxemos contêineres, contratamos equipe. Foram quatro meses intensos, praticamente sem descanso. Muitas pessoas nos diziam que era impossível fazer isso em tão pouco tempo, mas acreditamos e conseguimos. Brincamos que deveríamos entrar no Guinness pelo feito, somos um case onde duas mulheres montaram tudo do nada e nos fizemos ser respeitadas e admiradas.

Vocês também desenvolvem produtos no Brasil. Como funciona essa parte?

Camila – Sim, entendemos desde o início que não poderíamos depender só de produtos importados. Desenvolvemos uma linha de pratos em Porto Ferreira (SP), em parceria com Alleanza e Scalla. Também estamos criando jogos americanos e esculturas. Isso fortalece nossa identidade e abre espaço para exportação. Além disso, trabalhar com produção local nos permite ter mais controle de qualidade e responder rapidamente às demandas do mercado, acessando, também, os artesãos e ONGs para produtos exclusivos.

Já pensam em exportar?

Stefânea Sim, iniciamos pelo Panamá, em um projeto de 24 lojas. Foi uma experiência muito positiva e já abriu portas para outros mercados. Estamos em negociações em diferentes países e queremos ampliar bastante a atuação internacional. Nosso sonho é que nossas marcas sejam reconhecidas fora do Brasil, não apenas como importadoras, mas como criadoras de design original.

O que não pode faltar em uma casa bem decorada?

Stefânea – Antes de tudo a casa tem que ter a identidade do cliente. Partindo deste ponto, tapetes e iluminação adequada e elementos alocados de forma estratégica que transformem o ambiente, trazendo aconchego. Acreditamos que uma casa precisa ter alma. Não pode ser só bonita, tem que contar a história de quem vive nela. Por isso, deixamos inclusive espaços na loja para arquitetos levarem seus clientes e montarem combinações próprias, criando algo personalizado.

Quais são os planos para o futuro da empresa?

Camila – Queremos consolidar a CS como uma das maiores importadoras de elementos de decoração e utilidades domésticas do Brasil. Além disso, pretendemos ampliar a produção própria e expandir por meio das exportações. Estamos estudando novos formatos de experiência, como abrir um restaurante-showroom. Acreditamos que o futuro está em criar experiências imersivas que conectem design, arte e lifestyle. E aguardem 2026 com novidades.