Especialista avalia impacto das mudanças regulatórias, tendências em fusões, aquisições e preservação patrimonial
Por Redação
Foto: Renato Ochman/Divulgação
A sucessão continua sendo um dos principais pontos de tensão nas empresas familiares, enquanto a governança tem papel decisivo na redução de conflitos. Conversamos com Renato Ochman, especialista em Direito Societário, Mercado de Capitais e negociações nacionais e internacionais, que analisa o movimento dos investidores estrangeiros, as mudanças regulatórias que impactam o fluxo de capital e as tendências que vêm moldando fusões, aquisições e a preservação do patrimônio familiar.
THE PRESIDENT _ Quais são, na sua avaliação, os principais desafios que as empresas familiares brasileiras enfrentam no momento de estruturar a sucessão entre gerações?
Renato Ochman – Entendo que os desafios são praticamente os mesmos de gerações anteriores, a principal diferença foi a evolução de mecanismos de estruturas legais e conceituais que são hoje aplicadas, porém, como toda novidade e avanço estrutural, deve ser avaliado e ajustado de forma personalíssima para cada família, conforme características e objetivos individuais e coletivos da família e o perfil do negócio.
Como a governança corporativa pode contribuir para reduzir conflitos e garantir a continuidade dos negócios familiares a longo prazo?
RO – Como sempre chamo a atenção, o sucesso da própria governança corporativa familiar passa prioritariamente pela relação entre as pessoas, sendo objetivas e transparentes e, a partir daí, a formalização da governança será consequência.
O senhor tem ampla experiência com famílias empresárias que investem no exterior. Quais estratégias jurídicas e societárias são mais eficazes para a internacionalização desses grupos?
RO – Lembro que, no mundo todo, as principais empresas são familiares, o que faz com que os problemas conceituais sejam comuns, de onde estão localizadas no mundo. É uma relação entre pessoas. Quero dizer com isso que nem todas as famílias no exterior têm a “poção mágica” para solucionar sua Governança Corporativa Familiar. Mas, por outro lado, estão mais abertos para novas ideias, novas estruturas e, principalmente, um objetivo final de tornar a empresa pública, com capital aberto. Estes sim são os grandes diferenciais com as empresas brasileiras.
Que mudanças o senhor observa no perfil dos investidores estrangeiros interessados no Brasil e quais setores devem concentrar as atenções em 2026?
RO – O perfil do investidor sempre se altera em razão da situação econômico-financeira do país, custo do dinheiro e muitas vezes oportunidades em setores específicos que o Brasil ou países importadores do Brasil necessitam hoje. Os setores de energia, educação, alimentos e agro são alguns setores de interesse.
Como as transformações regulatórias e geopolíticas recentes têm influenciado as negociações internacionais e o fluxo de investimentos no país?
RO – É um tema muito sensível e que com certeza causa alerta em investidores, mas não apenas no Brasil, e sim em todo o mundo. É preciso estar atento e muito bem-informado dos mercados targets.
Quais tendências o senhor identifica nas novas modalidades de estruturação de negócios, especialmente em fusões e aquisições que envolvem empresas familiares?
RO – Entendo que conhecer o seu mercado e o negócio em si responde muito à pergunta. Quero dizer com isso que as aquisições estão sendo feitas (e serão ainda mais) com uma premissa de manter por um período razoável após o fechamento parte da administração atual, muitas vezes membros da família, em razão dessas duas premissas. Desta forma, aquisições cada vez mais terão o elemento “DNA” no seu conceito.
Em sua trajetória, o senhor participou de grandes negociações internacionais. Quais aprendizados considera mais valiosos sobre a gestão de disputas e a construção de consenso entre acionistas?
RO – Depois de muitos anos nesta área de negociação, “Aprendendo” é mais importante do que “Aprendi”, pois a cada momento surgem novas estruturas, novos negócios, e novos conceitos impactados até por geopolítica, mas posso dizer que meu aprendizado nesses anos me diz que saber “ler” as pessoas, entender o negócio e especialmente o real objetivo do negócio, a longo prazo, de quem você representa são ninjas gastáveis em qualquer negócio.
De que forma a experiência global pode inspirar o aprimoramento do ambiente jurídico e empresarial brasileiro, especialmente no que se refere à sucessão e à preservação de patrimônio familiar?
RO – Ao longo dos anos, sem dúvida, o que vemos no exterior sempre nos inspira e desafia para aplicarmos no Brasil. E muitas estruturas desenvolvidas no exterior já foram aplicadas no Brasil, e continuam. A única ressalva que faço é que o peso dos costumes dos negócios, da cultura do local, e aqui falo dos vários estados do Brasil, pesa muito na aplicação das novas estruturas “importadas” do exterior, e o desafio é como tropicalizar tais estruturas.