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entrevista

Por que empreender no mercado de beleza nacional ainda é um desafio?

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Por que empreender no mercado de beleza nacional ainda é um desafio?

Por trás do grupo Duty Cosméticos, dono das marcas DaBelle e Eico, está Danielle de Jesus. Vice-presidente e fundadora, ela comanda o grupo, criado há apenas cinco anos

Por Redação

No setor da beleza, onde as tendências surgem e desaparecem quase na velocidade da luz, Danielle de Jesus – vice-presidente e fundadora da Duty, holding por trás de marcas como a DaBelle – ganhou protagonismo por um princípio simples: escutar. A empresária mergulha nas conversas reais de mulheres brasileiras, identifica dores cotidianas e desejos urgentes. A partir disso, construiu marcas com identidade, mas também com propósito: acessíveis, veganas, comprometidas com o meio ambiente e profundamente conectadas com quem as usa.

À The President, Danielle fala sobre como crescer sem perder o vínculo com o cliente, atingir a meta de R$ 480 milhões em faturamento até 2026 e, claro, fazer tudo isso sem deixar de lado a sensibilidade no centro das decisões – seja no laboratório ou em casa. “É fundamental entender que criar não é sobre gosto pessoal, e sim sobre responder às necessidades reais da consumidora.”

Danielle de Jesus, VP e fundadora da Duty. Foto: Divulgação

THE PRESIDENT_ Qual foi o seu maior acerto à frente da Duty?

Danielle de Jesus – Sem dúvida, foi entender que, num mercado tão competitivo, o que realmente faz diferença é ouvir a consumidora antes de qualquer decisão — e depois agir com velocidade. Foi assim que criei DaBelle: uma marca jovem, divertida, acessível e totalmente conectada com o que a consumidora busca de verdade. Com preço justo, comunicação simples e tempo de resposta rápido, conseguimos crescer mais de 40% no último ano.

Como funciona, na prática, o modelo de criação baseado em escuta ativa nas redes?

DJ – Monitoramos conversas reais nas redes sociais para entender profundamente o que move nossas consumidoras: o que elas sentem, como falam, quais dores compartilham, quais termos e gírias usam. Em vez de focar apenas em métricas de engajamento, mergulhamos no porquê do engajamento — o que está por trás das interações e quais temas geram conexão genuína. Esse mapeamento constante alimenta diretamente os briefings para os times de Desenvolvimento e P&D. Um exemplo disso foi o lançamento de linhas de sucesso como DaBelle Abacate Nutritivo, DaBelle Meu Cronograma Perfeito e, recentemente, DaBelle Cereja Mania — que chegou ao mercado antes mesmo de o ingrediente virar uma tendência consolidada no Brasil.
Essa antecipação só foi possível graças a uma escuta ativa e inteligente, que cruza dados de comportamento, moda, fragrâncias, ingredientes e estética visual com nossa capacidade interna de desenvolver, testar e lançar produtos com agilidade.
Mais do que seguir tendências, buscamos fazer parte da construção delas — com repertório, sensibilidade e, acima de tudo, respeito e atenção à consumidora brasileira.

O que você trouxe da sua experiência nos EUA que aplica até hoje?

DJ – Um olhar mais atento ao consumidor, ao mercado e às ofertas de produtos disponíveis nas prateleiras do Brasil. Percebi que havia espaço para criar algo único, com visual impactante e diferente do comum, que refletisse os desejos das consumidoras de forma simples e com propósito. Nossas marcas são veganas, não testadas em animais e comprometidas com a responsabilidade ambiental, por meio da parceria com a Eu Reciclo.

Como escalar um negócio sem perder a escuta com o cliente?

DJ – Escalar não significa se afastar, significa criar processos que mantenham a escuta viva. Ferramentas de social listening rodam 24/7 e viraram pauta fixa no comitê executivo, inclusive comigo na mesa. É fundamental entender que criar não é sobre gosto pessoal, e sim sobre responder às necessidades reais da consumidora.
Um exemplo claro disso foi o lançamento da linha DaBelle Hair Trends Gelatina Jujuba, uma subcategoria que ainda não existia no nosso portfólio, mas que é parte essencial da rotina de mulheres crespas, cacheadas e onduladas, que representam mais de 70% das brasileiras. Escutamos, priorizamos e entregamos com inovação e agilidade.

O que ainda falta para a beleza vegana de alta performance ser realmente acessível no Brasil?

DJ – Precisamos de uma cadeia produtiva local mais robusta em ingredientes verdes e, principalmente, volume. Quanto mais marcas exigirem matérias-primas veganas, menor será o custo, e mais “preço justo” conseguiremos oferecer, sem abrir mão de fórmulas limpas, um valor que, para mim, é inegociável.

Como equilibrar inovação com rentabilidade?

DJ – A inovação, pra mim, só faz sentido quando parte de uma dor real da consumidora e chega ao mercado com força de venda. E esse equilíbrio só é possível porque temos um time de Pesquisa & Desenvolvimento muito conectado com o negócio. É a partir deles que conseguimos transformar escuta em solução: fórmulas que entregam performance, com custo viável e resultado real. A criação não pode ser baseada em gosto pessoal ou em uma tendência solta. Já deixei projetos pelo caminho ao entender que não iam performar na gôndola. A gente não se apega: escuta, testa, ajusta – e só coloca no mercado o que tem motivo para existir.

O que você procura em líderes dentro da Duty?

DJ: Sentimento de dono, capacidade de ouvir e clareza na comunicação. Líderes que façam o time se sentir protagonista, que traduzam metas de negócio em propósito diário e que vivam nossos seis valores: cuidado com gente, diversidade, consumidor no centro, ética, responsabilidade socioambiental e, claro, visão de negócio.

Que conselho daria para quem quer empreender com impacto real?

DJ – Acredite em você e não se compare. Cada um tem um caminho — e o seu vai ser do seu jeito. Pra mim, empreender com impacto é estar disposta a ouvir, aprender todos os dias e ter coragem para mudar a rota quando for preciso. É entender que você não sabe tudo — e tá tudo bem. O importante é ter ao seu lado um time que joga junto e te ajuda a enxergar além.
Impacto de verdade vem quando você constrói com verdade, com gente e com escuta. E, acima de tudo: não desista no primeiro desafio. Porque eles vão aparecer, e é aí que você se reinventa.

Quais são as metas de faturamento para o próximo ano?

DJ – Nossa meta é manter um crescimento de dois dígitos robustos, alcançando a marca de R$ 480 milhões em faturamento em 2026, impulsionados pelo aumento da distribuição de Hair Care e pela entrada em novas categorias.

O que a rotina no ponto de venda te ensina como mãe, executiva e consumidora?

DJ – O ponto de venda é onde tudo se cruza: o olhar da executiva, a exigência da consumidora e a escuta da mãe. Como executiva, é ali que tenho os melhores insights — entendendo o que conecta, o que falta e o que encanta. Como consumidora, fico ainda mais atenta aos detalhes que fazem diferença. E como mãe, o PDV me lembra todos os dias que só ouvindo de verdade, com atenção e presença, é possível entender o que é melhor. É o que faço com meu filho — e é esse mesmo olhar que levo para cada consumidora, para cada produto. Quando a gente se dedica de verdade e cria uma relação única com cada escolha, aprende mais, se conecta mais e entrega o melhor em tudo: no negócio, nas relações e na vida.