Com a possibilidade de trabalhar em qualquer lugar, o mercado de residências de lazer se transforma em um dos setores mais dinâmicos do segmento de alto padrão
Por Marcello Romero
Nos últimos anos, os condomínios de segunda e terceira residência deixaram de ser apenas refúgios de fim de semana. Impulsionados pela pandemia, pela consolidação do home office e por um novo olhar sobre o equilíbrio entre trabalho e bem-estar, esses empreendimentos passaram a representar um modo de vida — e também uma oportunidade sólida de investimento. Vale observar que o perfil do comprador mudou. Antes restrito a quem buscava lazer ocasional, hoje o público é formado por profissionais e famílias que alternam temporadas entre a cidade e o campo ou o litoral, transformando a casa de veraneio em uma extensão da vida cotidiana. O que motivou esse movimento foi a busca por mais espaço, natureza e convivência. As pessoas perceberam que podiam trabalhar de qualquer lugar e decidiram investir em qualidade de vida. A pandemia foi o ponto de virada. Terrenos antes ociosos em condomínios fechados voltaram ao radar de investidores e famílias de alta renda, que passaram a construir suas casas com mais agilidade e planejamento. O avanço de construtoras especializadas no segmento também facilitou o processo. O home office e o anywhere office consolidaram o modelo híbrido de residência. Muitos executivos e empreendedores passaram a dividir a rotina entre São Paulo e o interior, passando três dias na cidade e o restante da semana fora dela. Essa flexibilidade ampliou o tempo de uso das segundas residências, que passaram a funcionar como moradias semipermanentes. A busca por segurança continua sendo o ponto de partida para quem investe nesses empreendimentos. Condomínios com infraestrutura completa, vigilância 24 horas e monitoramento de perímetro são prioridade. Mas o que realmente diferencia os novos projetos é o conceito de bem-estar integrado à arquitetura. Além disso, é preciso destacar a valorização da “arquitetura de autor” e do paisagismo como elementos centrais da experiência.
As casas refletem essa nova lógica de uso. Grandes e multifuncionais, elas costumam ter ao menos seis suítes e espaços voltados à convivência. Incluam-se áreas gourmet, salas de cinema, brinquedotecas e quartos para hóspedes ou colaboradores. O objetivo é receber família e amigos com conforto, favorecendo longas estadias. Outro atrativo é o fator social. O ambiente dos condomínios de alto padrão favorece o networking e a convivência entre pessoas com perfis semelhantes. O segmento vem experimentando forte valorização desde 2020. A combinação de demanda aquecida e oferta limitada — devido ao tempo de licenciamento e construção, que pode ultrapassar uma década — fez o preço dos terrenos e das casas disparar. Condomínios consolidados como Fazenda Boa Vista, Fazenda da Grama e Haras Larissa são hoje referências em sofisticação e liquidez. Empreendimentos recentes, como o Vista Verde, em Araçoiaba da Serra-SP, seguem a mesma trilha, com infraestrutura de lazer completa, vinícola, hotel e até piscina de ondas. Apesar da leve desaceleração recente, provocada pelos juros altos, o setor mantém potencial de crescimento. Quem compra esse tipo de imóvel não está em busca de necessidade, mas de oportunidade. À medida que os juros caírem, a demanda tende a retomar fôlego. O futuro do segmento aponta para formatos híbridos que combinam turismo, investimento e hospitalidade. Alguns empreendimentos já reservam áreas internas para operações de hotelaria de curta temporada (short stay), o que ajuda a reduzir custos de manutenção e atrai novos compradores ao permitir que visitantes vivenciem a experiência do condomínio antes de adquirir um lote. Outro movimento emergente é o de clubes residenciais e modelos de multipropriedade — ainda incipientes no Brasil, mas consolidados em mercados como o norte-americano. Empresas como a americana Pacaso popularizaram o modelo de aquisição fracionada de imóveis de luxo, que permite ao comprador deter uma parte da propriedade e usufruí-la por períodos determinados. No Brasil, iniciativas semelhantes começam a surgir, mas ainda enfrentam barreiras culturais e jurídicas. O conceito de compartilhar uma casa de alto padrão com outras famílias ainda causa resistência. A tendência é clara: o desejo por viver com mais espaço, conforto e natureza tornou-se permanente. Os condomínios de segunda e terceira residência evoluíram de refúgios sazonais para centros de convivência e trabalho remoto, unindo design, tecnologia e sustentabilidade. O setor deve seguir se diversificando, com empreendimentos que combinam hospitalidade, lazer e investimento. Mais do que uma fuga da cidade, trata-se de uma nova forma de habitar — uma expressão contemporânea do luxo, pautada pelo tempo, pela natureza e pelas relações humanas.