Em Aprendizado Incidental, Conrado Schlochauer propõe uma nova lógica de aprendizagem corporativa baseada na experiência, na curiosidade e no inesperado
Por Mario Ciccone
A inovação nem sempre nasce de uma ideia genial ou de um plano meticulosamente estruturado. Muitas vezes, ela emerge do que já está à nossa frente: das rotinas, das conversas triviais, dos hábitos que se repetem sem chamar atenção. O problema é que raramente olhamos para isso com cuidado.
É a partir dessa lente que Conrado Schlochauer constrói Aprendizado Incidental (Editora Gente) – o poder do life wide learning, livro em que sistematiza mais de três décadas de pesquisa e atuação como consultor, palestrante e fundador da nōvi, empresa dedicada ao desenvolvimento de culturas de aprendizagem mais vivas e eficazes.
Mestre em Criatividade pela PUC-SP e doutor em Aprendizagem de Adultos pelo Instituto de Psicologia da USP, Schlochauer questiona modelos tradicionais de educação corporativa e propõe uma mudança de foco: aprender menos por prescrição e mais por atenção ao que emerge da experiência.
Ao discutir como aprendemos, o autor introduz uma distinção central entre dois modos de buscar conhecimento. De um lado, a exploração aberta, marcada pela curiosidade, pela aceitação da incerteza e pela disposição de investigar sem respostas prontas. De outro, a exploração fechada, mais comum e confortável, que se limita a confirmar saberes já estabelecidos. Embora eficiente, essa segunda abordagem tende a produzir pouco impacto transformador.
No ambiente corporativo, a exploração fechada costuma prevalecer. Líderes recorrem sempre às mesmas referências, equipes enfrentam desafios com ferramentas conhecidas, projetos nascem excessivamente condicionados a metas rígidas, que pouco espaço deixam para descobertas ao longo do percurso. Em Aprendizado Incidental, Schlochauer argumenta que esse excesso de controle compromete o aprendizado real, aquele que nasce do desvio, do erro, da escuta de vozes externas e da atenção ao que não estava no radar inicial.
Publicado em 2025, Aprendizado Incidental dá continuidade à reflexão iniciada em Lifelong Learners: o poder do aprendizado contínuo, best-seller lançado em 2021, e aprofunda a defesa de uma aprendizagem que ultrapassa os limites do treinamento formal. Ambassador do Chapter São Paulo da Singularity University, Schlochauer convida líderes, educadores e organizações a uma mudança de postura: abrir espaço para escutar sem antecipar conclusões, testar sem garantias e observar sem a necessidade de controle.
Confira aqui o primeiro capítulo do livro.
CAPÍTULO 1
A APRENDIZAGEM AO LONGO DA VIDA
A cada semestre, para tudo durante uma semana e se refugia em sua casa na beira de um lago. Leva consigo uma pilha de livros, artigos e projetos com temas bem definidos, todos relacionados a problemas globais que gostaria de ajudar a resolver.
Uma semana inteira sozinho para ler, refletir, escrever e aprender. Essa prática começou nos anos 1980, quando se escondia na casa da avó com o mesmo objetivo. Ele transformou essa prática em uma atividade coletiva em sua empresa: durante as Think Weeks, cinquenta executivos seniores avaliavam artigos científicos e ideias enviadas pelos colaboradores. Bill Gates, fundador da Microsoft e uma das pessoas mais ricas do mundo, é um lifelong learner, um aprendiz ao longo da vida.
Na série documental O código Bill Gates, o produtor Davis Guggenheim se mostra impressionado com como o aprendizado faz parte da vida do criador do Windows. No início do segundo episódio, David comenta: “À medida que comecei a conhecer Bill nesta nova fase, fiquei com a impressão de que ele transformou a própria vida em uma longa e contínua Think Week”.
Mas Bill Gates não se tornou apaixonado por aprendizado apenas depois que fundou a Microsoft. Conhecendo um pouco de sua história, é possível perceber que esse papel foi desenvolvido e cultivado desde muito cedo. É claro que o fato de ele ter uma capacidade intelectual acima da média ajuda muito. Mas a inteligência sozinha nunca é suficiente.
No seu blog pessoal, Gates Notes, ele relata, em diversas passagens, como sua vida esteve repleta de pessoas que o incentivaram e colocaram o aprendizado em um local de destaque e prazer. O ponto de partida do conceito de aprender e estudar para a maioria de nós é a escola. Para Bill Gates, essa experiência foi extremamente positiva: “Crescendo, tive a sorte de ter professores que incentivavam seus alunos a explorar áreas de aprendizagem que os interessavam. Ter liberdade para experimentar as coisas me permitiu desenvolver uma paixão pela computação […]. Ter a sorte de ter ótimos professores também alimentou o amor pelo aprendizado que permaneceu comigo desde então”.
A continuação de sua vida acadêmica foi menos tradicional. Em 1973, aos 18 anos, ele entrou na Universidade Harvard, mas não concluiu o curso. Não queria perder a revolução tecnológica que se iniciava.
Prometeu a seus pais que voltaria, o que nunca aconteceu. Numa entrevista à Bloomberg, em 2016, ele disse que era uma pena não ter ficado em Harvard, mas que acreditava não ter perdido muito porque “estava sempre no modo aprendizado” e, mais para a frente, complementa: “É estranho eu ter abandonado a faculdade, porque faço cursos em universidades o tempo todo. Eu amo ser estudante”.
Seus pais, Bill Sênior e Mary, também influenciaram o olhar do filho com uma abordagem mais informal. Mary teve um papel muito importante em dois aspectos fundamentais da vida de Bill: a filantropia e a própria Microsoft. Na adolescência do filho, sempre lhe perguntava quanto da mesada ele estava separando para caridade. No início da empresa, atuou como mentora dele em decisões de negócio.
Outra figura importante na vida de Bill foi o grande amigo Warren Buffett, um dos maiores investidores do mundo. Eles se conheceram há trinta anos e se tornaram “mentores mútuos”, segundo os próprios. Mais do que uma influência, Buffet foi uma parceria muito importante: “Warren nos ajudou a fazer duas coisas impossíveis de se exagerar na vida: aprender mais e rir mais”.
Essa é a história de um verdadeiro aprendiz. E ela ocorre dessa forma, mesmo: ao longo da vida. O resultado é uma pessoa extremamente conectada, influente e plena.
Bill Gates teve a sorte de ter tantos elementos combinados ao mesmo tempo: capacidade intelectual, uma escola estimulante, apoio da família e amigos, além de sucesso financeiro incomparável. Claro que isso ajudou e ajuda muito. Contudo, o que mais me chama a atenção é sua curiosidade infinita pelos grandes problemas do mundo somada à crença que tem na própria capacidade de contribuir com eles.
Este livro não é para poucos escolhidos pela genética ou pelo sucesso empresarial. Ao contrário. Minha experiência com centenas de milhares de alunos não deixa qualquer dúvida de que o aprendizado ao longo da vida pode ser uma realidade para cada pessoa deste planeta. Mais do que isso, acredito intensamente que quanto mais aprendizes autônomos, confiantes e apaixonados conseguirmos formar, menores serão os problemas do mundo.
Talvez você tenha começado a ouvir falar desse tema agora. Ele está em destaque porque chegamos a um momento do mundo em que o aprendizado ao longo da vida tem todos os elementos necessários para se disseminar: necessidade, apoio tecnológico e vontade por parte das pessoas.
Seu apogeu está acontecendo agora, mas se trata de um movimento que começou em meados do século passado. Não foram a transformação digital nem a quarta revolução industrial que dispararam uma busca pelo aprendizado contínuo. Já há quase cinquenta anos a sociedade – por meio de entidades como a Organização das Nações Unidas (ONU) ou a Comunidade Europeia – percebeu que há um risco muito grande na concepção de que aprender é uma atividade restrita ao começo da vida.
O INÍCIO DE TUDO
O ano é 1945. Você lutou na Segunda Guerra Mundial e está voltando para casa. Há uma mistura de trauma e excitação. Acima de tudo, porém, há um grande questionamento: como retomar minha vida?
Essa foi a situação de mais de 16 milhões de soldados norte-americanos. Com uma idade média de 26 anos, apenas 40% desse grupo tinha concluído o ensino médio no momento da convocação para a guerra.
Um ano antes, Franklin Roosevelt, então presidente dos Estados Unidos, publicou uma lei denominada G.I. Bill of Rights,5 que oferecia incentivos financeiros para que ex-combatentes continuassem seus estudos. Os políticos norte-americanos anteviam um potencial crescimento econômico pós-guerra aliado à necessidade de requalificação para o trabalho.
Como resultado, em 1947, quase metade das matrículas em cursos superiores foram realizadas por veteranos. Isso trouxe uma mudança radical para escolas e universidades, cujos professores foram expostos a situações pedagógicas com as quais não estavam habituados.
O retorno dos combatentes levou para a sala de aula estudantes com perfil diverso do tradicional. Eles tinham a necessidade premente de se atualizar com as inovações tecnológicas desenvolvidas durante os períodos de guerra. Alunos-soldados, que haviam passado por um hiato educacional em virtude do serviço militar, retornavam com experiência, idade e condição familiar diferentes das de muitos de seus colegas.
Por isso, pode-se dizer que as décadas após a Segunda Guerra Mundial, sobretudo no final dos anos 1960, foram um período de muitos debates e reflexões que impactaram diretamente o surgimento do conceito de aprendizagem ao longo da vida.
Até esse momento, a escola era vista como uma etapa preparatória que seria seguida por um período longo de trabalho e um breve momento de descanso ao final da vida. Nessa concepção, o retorno aos estudos na idade adulta significaria o reconhecimento de uma falha no processo inicial. Por isso, a importância do momento pós-guerra: foi a primeira vez que a educação ofereceu o que podemos chamar de uma segunda oportunidade a alunos adultos.
O conceito de aprendizagem ao longo da vida propriamente dito desenvolveu-se um pouco mais à frente, incubado nos ideais democráticos e libertários das revoluções estudantis de 1968. Ao redor dessa época, três organismos internacionais – Conselho da Europa, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – lançaram as bases para a construção de uma visão que se transformaria em um novo paradigma na educação mundial. O interesse por um tipo mais abrangente de educação e aprendizagem trazia motivos sociais e econômicos. Por um lado, pesquisas questionavam a efetividade do sistema de educação tradicional, sugerindo que não promoveria igualdade de oportunidades, melhoria de desempenho futuro ou mesmo conhecimento sobre práticas para o aprendizado contínuo, como foi possível verificar. Iniciava-se, por outro lado, um debate sobre a presença e o papel do Estado como provedor monopolista da educação. A escola passava a ser vista por muitos como instrumento de dominação com o objetivo de ensinar respeito às leis, disciplina e virtude de “bons cidadãos” e, assim, formar mão de obra dócil, de fácil controle.
Um exemplo do ambiente questionador vivido na época é a obra Sociedade sem escolas, de Ivan Illich, publicada em 1970. O autor propõe uma visão radical ao conclamar a criação de uma sociedade sem escolas obrigatórias. Nela, as pessoas aprenderiam o que e com quem desejassem, para evitar situações em que “alunos matriculados se submetem a professores diplomados para obter também eles diplomas; ambos são frustrados e ambos responsabilizam a insuficiência de recursos – dinheiro, tempo e instalações – por sua frustração mútua”.
Países-membros de organismos multinacionais demandavam novas ideias e visões para organizar e implementar um processo estruturado de educação de adultos. O Conselho da Europa propôs, nos anos 1960, o conceito de educação permanente. De acordo com o livro9 de mesmo nome lançado à época, tratava-se de um conceito fundamentalmente novo e abrangente que criaria um novo padrão educacional capaz de auxiliar as necessidades diversas e específicas de jovens e adultos rumo à construção de uma nova sociedade europeia.
No início dos anos 1970, a Unesco lançou duas publicações também consideradas marcos: An Introduction to Lifelong Learning10 e Learning to Be. Ambas abordam o assunto tanto do ponto de vista da educação libertadora e democrática, inspirada nas ideias de Paulo Freire, quanto do ponto de vista econômico e vocacional.
O modelo educacional proposto trazia o desejo (e o objetivo institucional) da busca pela paz, na medida em que havia o intuito de criar, por meio da formação de adultos-cidadãos, um ambiente de compreensão global que impedisse a volta do nacionalismo dividindo as nações. Faure, em seu relatório citado acima, apresentou a educação ao longo da vida como caminho a ser seguido nas políticas educacionais, tanto em países desenvolvidos como em países subdesenvolvidos. Entre os direcionadores de seu argumento, o principal era simples e direto: todo indivíduo adulto deveria ter a possibilidade de aprender por toda a vida. Para isso, foi proposta uma série de mudanças no pensamento e na prática educacional. De acordo com o texto, a escola deveria adaptar-se ao aluno, e não o contrário. Além disso, todos os alunos jovens e adultos deveriam “poder exercer responsabilidades como sujeitos não só da própria educação, mas de toda atividade educativa”.
Por sua vez, a OCDE lançou o manifesto Recurrent Education: A Strategy of Lifelong Learning. Ao destacar a importância da promoção do aprendizado em ambientes formais e informais, o organismo propunha uma sociedade com oportunidades educativas ao longo de toda a vida na forma e no tempo que fossem necessários. O texto criticava a escola rica em informação e pobre em ação.
Embora o documento tenha sido considerado portador de uma visão com viés demasiadamente econômico da educação, a OCDE propunha, de fato, um conceito inédito: a alternância de educação e trabalho ao longo da vida. O objetivo seria unir necessidades e desejos individuais com os do mercado de trabalho. Educação permanente, educação para todos e educação recorrente são conceitos que conviveram com educação ao longo da vida por diversos anos, sem uma distinção clara entre eles. Todos enfatizavam, do ponto de vista prático, as seguintes características:
Necessidade de pensar a educação e o aprendizado para além da infância e da adolescência. Experiência de aprendizagem, contendo dois objetivos complementares: um vocacional (no sentido de aumentar a qualificação técnica) e outro social (no sentido de buscar o desenvolvimento da cidadania e da emancipação de cada um). Existência e necessidade de pensar a educação fora da escola, tanto em ambientes formais como em ambientes informais.
A VIRADA DO SÉCULO
Durante quase vinte e cinco anos, o conceito da aprendizagem ao longo da vida foi discutido e reconhecido por políticos e acadêmicos que continuaram o processo de questionamento da escola tradicional. Contudo, pode-se dizer que não houve aplicação, de modo consistente e abrangente, ainda que tal conceito fosse considerado uma solução ideal e completa para as demandas educacionais.
A Comunidade Europeia também entendia que o conceito proposto ainda não tinha se concretizado. O Parlamento Europeu estabeleceu que 1996 seria o Ano Europeu da Educação e da Formação ao Longo da Vida, e teria como missão cumprir os objetivos propostos para a educação e “sensibilizar os europeus para os choques fundamentais suscitados pela sociedade da informação, a mundialização, os progressos da civilização científica e técnica, e a resposta que a educação e a formação podem dar para responder a esse desafio”. Se o intuito era o de sensibilizar, fica claro que as ideias propostas nos anos 1970 ainda estavam longe de se materializar em políticas e iniciativas educacionais amplas. Alguns anos depois, a
Comissão das Comunidades Europeias elaborou o Memorando sobre aprendizagem ao longo da vida com a intenção de alinhar os conceitos discutidos até aquele momento. Ao mesmo tempo, conclamou seus Estados-membros a liderarem o debate e a implementação da visão proposta. Na introdução, o documento reconhece, de maneira “indiscutível”, a entrada na “Era do Conhecimento”, e revela que, portanto, a aprendizagem ao longo da vida deveria deixar de ser um componente da educação e da formação para tornar-se um princípio orientador que deveria ter sua execução prática implementada ao longo da década.
Além disso, a Comissão apresenta uma nova expressão: a aprendizagem em todos os domínios da vida ou lifewide learning. Esse termo destaca a aprendizagem em quaisquer fases e dimensões da vida e enfatiza a complementaridade das abordagens formal, não formal e informal.
A discussão continuou ao longo da primeira década do século XXI. A Unesco, por exemplo, ancorou suas quatro principais conferências internacionais ocorridas em 2008 e 2009 no conceito de aprendizagem ao longo da vida. Entretanto, os resultados práticos ainda não ocorreram.
Do ponto de vista de políticas públicas, as queixas foram direcionadas à ausência do tema nas discussões nacionais e internacionais; à desvinculação e a consequente inexistência de certificação do aprendizado informal e não formal; ao foco exagerado em capacitação profissional e vocacional e ao número reduzido de oportunidades de formação de educadores alinhados às propostas da entidade.
Em 2006, um dos principais órgãos globais dedicados ao tema mudou de nome: o famoso Unesco Institute of Education (UIE) passou a se chamar Unesco Institute of Lifelong Learning (UIL). A mudança foi realizada com a intenção de reforçar o foco em educação fora da escola e não formal a partir da perspectiva da aprendizagem ao longo da vida.