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Customer Experience

Muito além da superfície

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Muito além da superfície

O verdadeiro poder da inteligência artificial está na experiência, e não na automação

Por Andreia Mariano*

A inteligência artificial não está apenas transformando a produtividade. Está redefinindo a própria essência da experiência. O entusiasmo que tomou conta do mundo corporativo fez muitos acreditarem que bastaria adotar ferramentas generativas para resolver gargalos e acelerar resultados. Mas a verdade é que, sem uma compreensão mais profunda, a IA pode se tornar aquilo que promete combater: um gerador de ruído e distração. Nos bastidores das soluções mais maduras existe uma estrutura pouco comentada — e essencial: o modelo RAG (Retrieval-Augmented Generation). É ele que permite à IA compreender o contexto, conectar informações e raciocinar sobre dados reais. Em vez de operar no vazio, o RAG busca o conhecimento correto e o devolve com precisão, combinando vetores, que traduzem significados, e grafos, que mapeiam relações. É esse conjunto que transforma conhecimento disperso em um tecido coerente, evitando a geração de respostas artificiais, desconexas e sem significado. Educar-se sobre essa arquitetura é uma das tarefas mais urgentes para líderes que desejam usar IA de forma responsável. Porque, no fundo, o grande risco não é a máquina errar — é o humano deixar de pensar. Mas quando o uso é consciente, o resultado é transformador. Um exemplo marcante vem da IKEA, que decidiu tratar a inteligência artificial não como um atalho operacional, mas como parte essencial da experiência. A empresa passou a analisar mais de 3 milhões de comentários de clientes em diferentes idiomas todos os meses, organizando esse conhecimento por meio de modelos de linguagem e sistemas de interpretação semântica. Isso permitiu compreender, em escala global, desejos, frustrações e padrões que antes se perdiam no ruído do digital. O impacto foi imediato: insights confiáveis para todos os mercados em que a empresa atua, capacitando as equipes para tomar decisões estratégicas. Essa iniciativa, somada ao app de visualização em realidade aumentada, no qual o cliente pode “ver” sua casa com novos móveis da IKEA — alimentado por IA —, transformou a satisfação. A tecnologia deixou de ser um obstáculo e se tornou um co-designer da jornada. A empresa percebeu que o segredo não estava em automatizar tarefas, mas em reorganizar o fluxo de conhecimento. Os dados passaram a circular de maneira inteligente, permitindo que o sistema reconhecesse cada contexto com naturalidade quase humana. O que antes era uma experiência fragmentada transformou-se em um espaço de descoberta contínua, no qual cada interação acrescenta sentido à próxima. Essa é a verdadeira estrutura da experiência: quando os dados deixam de ser ruído e se tornam diálogo. O que estamos vivendo não é uma corrida pela automação, mas uma disputa pela significância. As empresas que realmente se destacam na aplicação da IA à experiência do cliente não são as que implementam mais chatbots, mas as que compreendem que eficiência é apenas um subproduto do valor gerado.