Ursula Coelho, CEO da EON 2Life, healthtech brasileira que articula ciência e tecnologia para otimizar energia, performance e longevidade
Durante décadas, formamos líderes através da construção intelectual. Com foco em estratégia, repertório, disciplina e velocidade de decisão, lideranças altamente capacitadas venceram picos de complexidade.
O valor dessas competências não mudou. As habilidades intelectuais continuam sendo centrais e essenciais, mas são limitadas para o contexto atual de maior longevidade e de um mercado com complexidade contínua, em que a alta performance passa a ser medida também pela sustentação da clareza cognitiva, da estabilidade emocional e da energia física de forma consistente.
O corpo como gargalo silencioso
O corpo, frequentemente tratado como pano de fundo, é um elemento decisivo e pouco nomeado da liderança. Decisões ruins podem não ser apenas lacunas de análise ou falhas de conhecimento estratégico, mas limitações de um corpo desregulado. Por exemplo, a fadiga cognitiva que se mascara de racionalidade ou perfeccionismo leva o executivo ao excesso de planejamento e a perder o timing de mercado, por uma incapacidade que na verdade é fisiológica, de tomada de decisão. Da mesma forma, falta de foco e irritabilidade, que atribuímos ser “a correria”, podem ser consequências de uma inflamação silenciosa no intestino que reduz a produção de hormônios e neurotransmissores.
Quando a energia oscila e a clareza se fragmenta, o corpo deixa de ser suporte e passa a operar como um gargalo silencioso, ainda que o repertório intelectual permaneça intacto.
Parte da conversa contemporânea sobre liderança e saúde tem se concentrado na valorização dos escapes: esporte, hobbies e pausas passaram a ocupar o centro do discurso. Apesar de serem elementos importantes, isoladamente não são capazes de sustentar alta performance.
Já está muito bem estabelecido que corpo e mente não operam como compartimentos separados, mas é preciso lembrar que o organismo responde à forma como é nutrido, estimulado e regulado todo dia. Por isso, é necessário deslocar o conceito de que o cuidado está no escape à rotina e direcionar os esforços para trazer qualidade à própria rotina.
Começa a surgir uma competência ainda pouco nomeada no mundo executivo: o discernimento fisiológico aplicado à decisão.
O preparo para a liderança, portanto, exige uma expansão que articule a construção intelectual com a saúde fisiológica. A liderança que aprende a ler e a regular seu próprio corpo como parte do processo de performance, não apenas se protege do burnout, mas maximiza a sua capacidade de estar presente, lúcido e resiliente nos momentos cruciais.
Esse discernimento começa pelo autoconhecimento e por um cuidado mais consistente com a própria saúde. A tecnologia também está evoluindo para apoiar esse cuidado de forma contínua. Hoje, já existem ferramentas que integram dados fisiológicos captados por smartwatches e outros dispositivos vestíveis e interpretam sinais como sono, variabilidade cardíaca e padrões de estresse, além de identificar janelas de maior foco, ajustes no consumo de estímulos como a cafeína e o melhor timing para suplementação nutricional.
A próxima fronteira da liderança ultrapassa a gestão da informação e se aproxima da gestão do próprio corpo e mente também como ativo estratégico.
Afinal, é possível considerar uma decisão boa sem considerar o organismo que a decide?