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entrevista

Empresário cria modelo de startup que dribla a mortalidade do setor

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Empresário cria modelo de startup que dribla a mortalidade do setor

Com o theGarage, da Nexmuv, Carlos Perobelli constrói empresas do zero, acelerando crescimento e reduzindo riscos desde a concepção

Enquanto mais de 80% das startups brasileiras fecham as portas antes de completar cinco anos, a Nexmuv decidiu inverter a lógica do ecossistema: em vez de acelerar empresas frágeis, passou a criar negócios do zero, com capital próprio, processos definidos e times compartilhados desde o primeiro dia. Nesta entrevista, Carlos Perobelli, CEO da Nexmuv e idealizador do theGarage, reflete sobre o mercado brasileiro. Como criar, antes de acelerar?

THE PRESIDENT _ O que motivou a Nexmuv a criar o primeiro venture studio do Brasil e como o modelo se diferencia de incubadoras e aceleradoras tradicionais?

Carlos Perobelli — Na verdade nosso modelo tem algumas particularidades diferentes dos venture studio e, na verdade, se chama startup studio. Eu tinha uma inquietação muito clara: via boas ideias surgirem todos os dias, mas a maioria morria antes mesmo de se tornar um negócio real. Ou porque o empreendedor não tinha domínio operacional, ou porque faltava velocidade para executar, ou, ainda, porque o risco individual era grande demais para seguir adiante. Eu queria um modelo que eliminasse esses gargalos, um método capaz de transformar oportunidades em empresas de verdade, com processo, estrutura e resultado.
Foi aí que nasceu o theGarage. Diferente de incubadoras e aceleradoras, que apoiam negócios já existentes e dependem do ritmo e da maturidade de cada fundador, o theGarage faz startups do zero. As startups são construídas dentro de casa, com investimento próprio, com times compartilhados de tecnologia, produto, marketing, growth e operações. Isso garante velocidade, reduz riscos e aumenta drasticamente as chances de sucesso. Enquanto incubadoras e aceleradoras atuam como “mentoras” externas, o theGarage constrói como um sócio-fundador, dividindo conhecimento, processo e execução.

Quais são as cinco etapas do modelo de inovação do theGarage e como elas garantem maior taxa de sucesso nas startups criadas?

O modelo de inovação do theGarage é estruturado em cinco etapas que vão da identificação da oportunidade até a entrega do produto pronto para o mercado. As cinco etapas são: diagnóstico profundo do mercado; pesquisa e definição da oportunidade; prototipação e validação inicial; desenvolvimento completo do produto com testes contínuos e preparação para escala, incluindo marketing, vendas e rota de investimento. Esse processo garante uma construção muito mais sólida e sustenta a taxa de sucesso de 66% das startups criadas pelo studio.

Como funciona o aporte de até R$ 1 milhão por startup e quais critérios definem quais ideias recebem esse investimento?

O aporte de até R$ 1 milhão por startup cobre todo o processo de criação do negócio, desde a pesquisa e diagnóstico inicial até o desenvolvimento do produto, testes, validação e preparação para escala. É um investimento que garante que a startup já nasça estruturada e pronta para operar. Em relação aos critérios, avaliamos principalmente a existência de uma dor real de mercado, o potencial de escala, a viabilidade técnica e a capacidade daquela solução se transformar em um negócio sustentável. Só avançamos com ideias que tenham clareza de demanda e condições de crescer dentro do modelo do theGarage.

Entre as startups já lançadas (MOC, GISA, Pet.IA e LUKRE), qual delas melhor exemplifica o impacto do modelo startup studio no mercado?

Todas as startups criadas pelo theGarage, como MOC, GISA, Pet.IA e LUKRE, mostram o impacto do modelo de startup studio, porque cada uma, no seu setor, comprova como uma ideia bem estruturada, com equipe formada desde o início e apoio contínuo de tecnologia, produto, processos e estratégia, evolui com muito mais velocidade e eficiência. O que valida o nosso modelo é justamente o avanço consistente desse conjunto de empresas em mercados distintos. Vale destacar a mais nova delas, a LUKRE, especializada na formação de preços para o comércio eletrônico, que surge em um momento de transformação do varejo, onde novas regras do Mercado Livre relacionadas aos preços praticados pelos vendedores de sua plataforma ganham destaque.

Qual é o papel da inteligência artificial no desenvolvimento rápido e eficiente dos produtos digitais?

A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento rápido e eficiente de produtos digitais. Ao automatizar tarefas, analisar dados, personalizar experiências e prever erros, a IA pode ajudar as equipes a criar soluções mais eficazes e atraentes para os usuários. Além disso, a IA pode otimizar processos de desenvolvimento, melhorando a eficiência e a produtividade. Com a IA, as equipes podem criar produtos digitais mais inovadores e competitivos, que atendam às necessidades em constante evolução dos usuários.

O Nexmuv Ventures foi criado com foco em startups do Norte e Nordeste. Quais oportunidades específicas essas regiões oferecem e como vocês pretendem captar talentos locais?

As regiões Norte e Nordeste oferecem oportunidades incríveis para o crescimento de negócios inovadores. O custo de vida nas regiões Norte e Nordeste é mais baixo em comparação com as grandes cidades do Sul e Sudeste, o que permite que as startups aloquem recursos de forma mais eficiente. A região tem uma grande quantidade de talentos locais, especialmente em áreas como tecnologia, design e marketing. Além disso, o Norte e Nordeste estão experimentando um crescimento econômico significativo, o que cria oportunidades para startups que atendam às necessidades locais. A região também tem uma infraestrutura de inovação em crescimento, com hubs de tecnologia e incubadoras de empresas em cidades como Recife, Fortaleza e Salvador.Para captar talentos locais, a Nexmuv Ventures pretende estabelecer parcerias com universidades e instituições de ensino para identificar e atrair talentos locais; Oferecer programas de estágio e treinamento para jovens talentos; Participar de eventos e comunidades de tecnologia e inovação para se conectar com talentos locais; Investir em startups locais para apoiar o crescimento de negócios inovadores e atrair talentos.

A meta é alcançar retorno de até 30 vezes o valor investido em cinco anos. Quais métricas e indicadores são usados para medir esse sucesso?

O sucesso de uma startup depende de vários fatores, incluindo crescimento, eficiência e valor. Os principais indicadores de sucesso incluem taxa de crescimento da receita, taxa de aquisição de clientes, taxa de retenção de clientes, margem de lucro, “burn rate” e retorno sobre o investimento. Além disso, é importante considerar o valor da empresa, o valor do cliente e a satisfação do cliente. Em resumo, medir o sucesso de uma startup é fundamental para entender se a empresa está no caminho certo. Ao acompanhar os principais indicadores de crescimento, eficiência e valor, as startups podem identificar áreas de melhoria e tomar decisões informadas para impulsionar o crescimento e o sucesso. Além disso, é importante lembrar que cada startup é única e pode ter indicadores e métricas específicas para sua indústria e modelo de negócios.

Como o theGarage estrutura o apoio aos CEOs e CTOs das startups, e de que forma o Centro de Serviços Compartilhados contribui para acelerar os negócios?

O apoio aos CEOs e aos CTOs é fornecido por meio do nosso Centro de Serviços Compartilhados (CSC), que reúne times de tecnologia, marketing, vendas, financeiro, jurídico e administração. Os executivos do theGarage atuam lado a lado dos founders desde a ideação, passando pela aceleração dos negócios, até o exit. Todos os projetos são financiados com recursos próprios, permitindo trabalhar sem depender de prazos ou exigências de investidores.

O livro lançado por Carlos Perobelli e Attila Szigeti mostra que 66% das startups criadas prosperam nesse modelo. Como essa taxa se compara ao cenário brasileiro atual?

Esse índice de 66% foi identificado pelo húngaro Attila Szigeti em startups ao redor do mundo que nasciam desse conceito de startup studio. Para chegar a esse índice as startups seguem diversos requisitos do modelo, como aplicação de processos, investidor único, entre outros. No Brasil um dos principais problemas é a falta de processos. O senso comum diz que basta ter uma grande ideia que o negócio vai decolar, mas não é isso que os números nos mostram. Hoje existem cerca de 17 mil startups ativas no Brasil, concentradas principalmente no Sudeste, mas com taxas de mortalidade superiores a 80% nos primeiros cinco anos, segundo a Associação Brasileira de Startups. O conceito startup studio que eu trouxe ao Brasil foi adaptado ao mercado brasieliro e já tem se mostrado eficiente. A startup Gisa, desenvolvida pelo theGarage, é um exemplo concreto. Com um ano de atuação, a startup já conquistou grandes clientes como a Sidewalk.

Quais são os planos da Nexmuv e do theGarage para os próximos anos? Podemos esperar novas startups em setores além de saúde, varejo e mercado pet?

Temos planos ambiciosos para os próximos anos. O The Garage planeja criar novas startups em setores além de saúde e varejo. Investiremos mais de 1 milhão em inteligência artificial (IA) para impulsionar o desenvolvimento de startups. Além disso, queremos captar investidores que queiram investir em nossas teses e no Brasil.