Livro “A Guerra de Churchill, 1940-1945”, lançado no Brasil para marcar os 80 anos do fim da Segunda Guerra, traz uma visão ampla e controversa de um dos maiores líderes da História
Por Mario Ciccone
Foto de Toby Madden/Divulgação
“Winston Churchill foi o maior cidadão inglês e um dos maiores seres humanos do século 20, ou até de todos os tempos.” Assim começa o livro “A Guerra de Churchill, 1940-1945”, do jornalista e historiador Max Hastings, lançado no Brasil pela Editora Intrínseca (intrinseca.com.br) para marcar os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.
É claro que o autor não está preocupado se vai desagradar quem reverencia William Shakespeare e a rainha Elizabeth I, muito menos irritar os fãs de John Lennon ou Lewis Hamilton. Porém, a obra não busca a canonização do líder britânico, mas dá a ele todas as cores e matizes. “Este livro discute os deslizes e os erros de julgamento de Churchill, que são muitos e variados. Eles não passam, porém, de pequenezas na montanha de suas realizações”, afirma o autor.
De acordo com a Hastings, a obra não tenta contar novamente toda a história de Churchill na guerra. “Apresenta, na verdade, um retrato de sua liderança a partir do dia em que se tornou primeiro-ministro, 10 de maio de 1940, levando em conta o contexto da experiência nacional da Grã-Bretanha.” Vale lembrar que a primeira metade do conflito recebe uma atenção maior, em parte porque a contribuição de Churchill foi mais expressiva. “Também procurei ressaltar questões e acontecimentos sobre os quais algo de novo poderia ser dito”, diz.
Com abordagens também das fragilidades políticas e estratégicas do primeiro-ministro, Hastings descreve episódios como a quase perda da oportunidade estratégica após a evacuação de Dunquerque e falhas na reorganização do exército britânico, além de conflitos com as Forças Armadas que levaram, em 1942, a pressões para que Churchill abrisse mão do controle operacional. Apesar disso, o autor aponta que sua liderança manteve o apoio público durante o conflito.
Em 624 páginas e 22 capítulos, Hastings passeia pelos palcos do teatro da guerra. De Inglaterra e França, passando, claro, por Dunquerque, e levando a história até o Mar Egeu, Teerã e Yalta.
A obra, aliás, foi lançada originalmente no Reino Unido em 2009. A imprensa inglesa já havia destacado o valor da narrativa de Hastings, já um historiador militar famoso. O Daily Telegraph considerou o livro “sutilmente revisionista”, elogiando Hastings por mostrar Churchill como grande ator na cena histórica. Já o The Independent elogia o retrato de um Churchill enérgico, espirituoso e combativo, capaz de mascarar o desempenho adequado do exército, e de se manter como igual perante Roosevelt e Stalin.
Conheça Max Hastings
O ano de 1945 marcou o fim do conflito mundial e do próprio governo de Winston Churchill. Naquele mesmo ano, nascia em Londres o autor do livro, Max Hastings. Ele estudou na University College, em Oxford, antes de iniciar a carreira no jornalismo. Em 1967, foi bolsista do World Press Institute, nos Estados Unidos, onde cobriu as eleições presidenciais de 1968. Depois, atuou como repórter da BBC TV e de jornais britânicos, cobrindo onze conflitos, entre eles a Guerra do Vietnã, a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a Guerra do Atlântico Sul, em 1982.
Seu primeiro livro de destaque, Bomber Command, foi publicado em 1979 no Reino Unido e nos Estados Unidos. Na sequência, lançou obras como Vietnã, Catástrofe e Inferno. Entre 1986 e 2002, foi editor-chefe do British Daily Telegraph e, posteriormente, editor do London Evening Standard. Recebeu prêmios pela produção editorial e pela trajetória jornalística, incluindo o prêmio Pritzker Library, em 2012, pelo conjunto da obra, e a medalha de bronze Arthur Ross, em 2019, do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, pelo livro Vietnã.
Mais livros de Max Hastings
Outros três livros de Max Hastings foram publicados pela editora Intrínseca no Brasil. Confira:
Inferno: O mundo em guerra 1939–1945 (2011). Uma visão global da Segunda Guerra, com ênfase em relatos de soldados e civis.
Vietnã: Uma tragédia épica 1945–1975 (2021). História completa da guerra do Vietnã, destacada por seu equilíbrio entre perspectivas americanas, vietnamitas e locais.
Catástrofe – 1914: a Europa vai à guerra (2014). O panorama geral da “Guerra para acabar com todas as guerras”, sob o olhar de todos os atores: de camponeses a aristocratas, de soldados a estadistas.
Leia mais sobre Churchill
Box Memórias da Segunda Guerra Mundial (Nova Fronteira): Reúne dois volumes que narram os eventos de 1939 a 1945, com o olhar de Churchill sobre decisões políticas, negociações diplomáticas e grandes batalhas.
Minha mocidade (Nova Fronteira): Autobiografia em que Churchill relembra infância, formação militar e primeiras experiências de combate na Índia e na África do Sul.
Memórias da Segunda Guerra – Vol. 1: A Grande Aliança (Nova Fronteira): Acompanha do período mais sombrio da guerra até a formação da coalizão com Roosevelt e Stalin, incluindo Pearl Harbor e as campanhas no Norte da África.
Memórias da Segunda Guerra – Vol. 2: Triunfo e tragédia (Nova Fronteira): Relata a invasão da Normandia, as grandes conferências aliadas e os eventos que levaram à queda de Berlim.
Churchill: Uma vida – Vol. 1 (Martin Gilbert, Companhia das Letras): Reconstrói a trajetória de Churchill da infância até sua entrada no Parlamento, com base em vasta documentação e correspondência.
O fator Churchill (Boris Johnson, Editora Planeta): Apresenta como Churchill, com suas escolhas políticas e estilo pessoal, influenciou decisivamente a história britânica em momentos críticos do século XX.
Churchill e a ciência por trás dos discursos (Ricardo Sondermann, LVM Editora): Examina tecnicamente 12 discursos de Churchill, explorando contexto histórico, estrutura retórica e a força persuasiva de suas palavras na Segunda Guerra.
Churchill (Editora Nova Fronteira). Do “moço atrevido” no final do século 19 à sua partida nos anos 1960. Esta é uma biografia das mais completas, publicada no início dos anos 2000.
Churchill em filmes e séries
The Crown (2016-2023): John Lithgow interpreta Churchill nos anos 1950, em arcos com a rainha Elizabeth II.
O destino de uma nação (2017): No papel que lhe rendeu um Oscar, Gary Oldman interpreta o premiê em maio de 1940.
Churchill (2017): No papel-título, o ator Brian Cox mostra tensões antes do Dia D em 1944.
Tempos de Tormenta (2009): Brendan Gleeson vive o primeiro-ministro durante a Blitz de 1940 a 1941.
O Discurso do Rei (2010). Em papel coadjuvante, o primeiro-ministro tem poucas cenas ao lado de George VI, o rei gago.
O Homem que Mudou o Mundo (2002): Albert Finney na ascensão ao poder nos anos 1930, prevendo ameaça nazista.
As Garras do Leão, 1972. A trama mostra o jovem Churchill como correspondente de guerra e o começo de sua ascensão política no Parlamento.
Frases de destaque
“É possível que os capítulos mais gloriosos da nossa história ainda estejam por ser escritos. Na verdade, os problemas e perigos que nos cercam, a nós e a nosso país, deveriam deixar os ingleses e as inglesas desta geração felizes por estarem aqui neste momento. Deveríamos nos alegrar diante das nossas responsabilidades com as quais o destino nos honrou e sentir orgulho de sermos os guardiães do nosso país numa época em que sua própria sobrevivência está em risco.”
Winston Churchill, abril de 1933.
“A História, com sua luz tremulante, cambaleia pela trilha do passado, tentando reconstruir suas cenas, reviver seus ecos e reacender os pálidos lampejos dos dias de outrora.”
Winston Churchill, abril de 1940.