Eis a provocação proposta pela britânica Adah Parris, uma das vozes mais proeminentes do futurismo internacional
Primeira entre três irmãos, filhos de mãe guianesa e pai nigeriano que migraram sozinhos para o Reino Unido, a pensadora e designer de futuros Adah Parris, 54 anos, nasceu e foi criada em Londres e formou-se em estudos educacionais. Sua trajetória inclui anos de pesquisas sobre cultura, tecnologia e transformação. Ao investigar suas mais longínquas raízes, Ada encontrou seu DNA refletido em uma vasta rede de regiões, ao longo de 1.400 anos. A partir de uma tribo nômade e uma mulher na África subsaariana, seus descendentes integraram ecossistemas e imprimiram legados na África Ocidental e Central, África Austral e Oriental, Caribe, Mediterrâneo, Sul da Ásia, Norte da África e Levante. Isso significa lugares como Nigéria, Gana, Serra Leoa, Libéria, Guiné, Congo, Jamaica, Guiana, Espanha, Portugal, Itália, Índia, Sri Lanka, Egito, Líbano e Síria. Em um contexto moderno, até poucas décadas, imaginar futuros parecia mais excentricidade do que necessidade. Mas desafios como urgência climática, domínio digital e instabilidade econômica e geopolítica, em escala global, tornaram o futuro mais urgente do que nunca. Dessa forma, passaram a demandar estratégias interconectadas para a construção de futuros não mais apenas sustentáveis, mas regenerativos, com potencial de resiliência e prosperidade. Mas o que é Futurismo afinal? Future Foresight, em denominação global (uma vez que internacionalmente futurism- -futurismo refere-se mais comumente ao movimento artístico de origem italiana do início do século 20), explora futuros possíveis, utilizando ferramentas e tecnologias para desenhar cenários desejáveis. É uma disciplina sistêmica por natureza, tendo o passado e o presente como matérias-primas para o seu desenvolvimento. Conversamos com Ada Parris, diretamente de Londres — e com outras referências da área —, para traçar um perfil da mulher que está redefinindo o futurismo como uma prática filosófica, ecológica e humana. Confira.
No Brasil, esta equação começa a ganhar contornos próprios. Batizado de Santos Dumont II, o novo sistema do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) é 25 vezes mais rápido que seu antecessor. O equipamento integra técnicas de IA aos modelos meteorológicos e foi concebido com foco em eficiência energética e otimização de refrigeração. A máquina, entre as mais potentes da América Latina, permite rodar modelos de alta resolução para antecipar secas, enchentes e eventos extremos — essenciais para a adaptação às mudanças climáticas.
Futuro ancestral
Movida pela curiosidade na conexão, padrões, conhecimentos e modo de vida de grupos originários de partes e tempos diversos, Ada encontrou em características como adaptabilidade, fluidez, autorreflexão e paixão, entre outras — espelhadas nos elementos básicos água-ar-terra-fogo —, fatores determinantes para a evolução dessas culturas. Sua linha particular de pesquisa e trabalho revela insights poderosos e práticos. “Esse olhar para a ancestralidade e conhecimentos originários nos indica caminhos, mas, acima de tudo, nos confere responsabilidade pela saúde e continuidade do planeta”, enfatiza Ada. Para ela, a narrativa imposta de um futuro controlado por tecnologias digitais é uma ameaça à utopia e à criatividade. Uma narrativa que desvia o olhar das origens, fundamental para a criação de futuros regenerativos. Como objetivo prático de seu trabalho, está a missão de ajudar organizações a transformar desafios sistêmicos em oportunidades inovadoras, por meio do reconhecimento de padrões e inteligência cultural.
A Grande Questão
Suas ideias e insights têm agitado o cenário de estudos e design de futuros, redirecionando olhares para conceitos e ferramentas tão fundamentais quanto inovadores. Para André Chaves, fundador do network global Future Hacker, Ada é uma das vozes mais inovadoras e provocativas da atualidade. Ele comenta: “Seu diferencial está na capacidade de incorporar saberes ancestrais, como os princípios do xamanismo, a escuta profunda da natureza, o respeito aos ciclos da vida e a conexão com o invisível, às discussões sobre futuro. Em vez de seguir a retórica tecnocêntrica dominante, Ada convida à reconexão com o sagrado, à inteligência do corpo e à sabedoria dos povos originários como caminhos legítimos para imaginar futuros mais conscientes, humanos e interdependentes”. Em seu livro Leadership Legacy, inspirada pelos griôs africanos — tradição oral de transmissão de história e cultura —, a renomada futurista e ativista guia líderes, criativos e organizações a irem além da sobrevivência à incerteza e a moldar futuros que valham a pena ser herdados. O ponto de partida é uma questão singular: que tipo de ancestral você quer ser?
“O olhar para ancestralidade e conhecimentos originários indica caminhos e nos confere responsabilidade pela saúde e continuidade do planeta.”
A partir daí, ou como ferramentas para esta reflexão, ela incorpora outras indagações, como a relação entre tecnologias digitais e conexões mundanas elementares. Observa também as perspectivas sobre as contribuições de conhecimentos tradicionais e indígenas para a tecnologia, inovação, debates econômicos e meio ambiente. Ainda revê conceitos como o ‘xamanismo ciborgue’, filosofia que funde tecnologia e natureza, e ‘eco sensualidade’, a percepção da tecnologia como relacionamento. “Este livro condensa anos de pesquisa sobre cultura, tecnologia e transformação em uma ideia clara: a liderança como evolução consciente”, explica Ada. “Ele convida os leitores a enxergarem liderança não como dominação ou previsão, mas como presença em movimento. É um olhar essencial para líderes de todas as linhas que procuram navegar sua responsabilidade para com o planeta e para com outros cidadãos globais.”
Tecnologias Humanas
Enquanto o mundo molda-se a previsões de uma era predominantemente digital, Ada olha para capacidades humanas como tecnologias fundamentais. “As tecnologias mais transformadoras da atualidade são aquelas que estão remodelando a forma como organizamos o significado e a conexão: inteligência artificial, biossíntese e ambientes imersivos. Mas, para usá-las bem, precisamos reviver tecnologias mais antigas de relacionamento: ritual, reciprocidade e pertencimento. Essas práticas ancestrais nos ensinam a liderar com cuidado, ao invés de aceleração. Unir esses aspectos não significa retornar ao passado. Significa projetar inovações que aprofundem a conexão, em vez de a corroerem. Quando a tecnologia está enraizada em relacionamentos, ela não cria apenas eficiência, ela cria legados.” Ainda segundo Ada, a identificação de padrões faz-se indispensável para a construção de futuros regenerativos. A pesquisadora de cenários de futuros Ligia Zotini, que divide linhas de pensamento com Ada, enxerga padrões não óbvios com extrema clareza. “É como as cores de Mondrian em um vestido Saint Laurent”, exemplifica com humor. “Causa um certo choque, mas faz todo o sentido, e é lindo. Sem presença consciente, isso simplesmente não é possível.” Voz ativa pela diversidade, após o diagnóstico de múltiplas condições neurodivergentes, como TDAH, borderline e autismo, Ada apropriou-se de forma ainda mais profunda de seus atributos cognitivos, como letramento em reconhecimento de padrões, sensibilidades aguçadas e extremo senso de presença. Afinal, assim como na natureza, diversidade, em todas as suas formas, é a base mais sólida para a continuidade.
Ada Parris vê o Brasil
Sobre o Brasil: “Sempre senti uma atração discreta pelo Brasil. Quando visitei o país, entendi o porquê. O Brasil combina complexidade com abertura. Alegria, dificuldades, arte, ancestralidade e possibilidades convivem lado a lado. Fiquei emocionada com a maneira como as pessoas se relacionam com presença e atenção. Lembrou-me que o futuro é construído por meio da conexão, e não apenas por meio de ideias”, observa a futurista, que esteve no Brasil pela primeira vez em 2023.